COMO A COLONIZAÇÃO NO BRASIL ATÉ HOJE INFLUENCIA A DIVISÃO REGIONAL BRASILEIRA?

COMO A COLONIZAÇÃO NO BRASIL ATÉ HOJE INFLUENCIA A DIVISÃO REGIONAL BRASILEIRA?

16 de janeiro de 2026 Off Por Scientia et Ratio

HOW DOES COLONIZATION IN BRAZIL CONTINUE TO INFLUENCE THE REGIONAL DIVISION OF THE COUNTRY TO THIS DAY?

Artigo submetido em 06 de janeiro de 2026
Artigo aprovado em 16 de janeiro de 2026
Artigo publicado em 16 de janeiro de 2026

Scientia et Ratio
Volume 6 – Número 10 – 2026
ISSN 2525-8532
Autor:
Mohamed Khallyd Gurjão Do Nascimento[1]

Amaury Aragão Saraiva Bezerra Júnior[2]

RESUMO: O presente trabalho trata-se de uma análise de como o processo de divisão de territórios para a formação de Capitanias Hereditárias, empreendido pela Coroa Portuguesa, gerou noções de pertencimento social nos territórios divididos, influenciando as divisões regionais do Brasil durante séculos, até o momento presente, com denominações de Estados e Municípios já estabelecidas desde o Período Colonial Brasileiro, embora com modificações posteriores ao início das Capitanias Hereditárias, é possível dizer que a divisão territorial do Brasil em Capitanias Hereditárias foi decisiva para a formação de muitos territórios e de regionalizações sistematizadas geograficamente sobre o território brasileiro.

PALAVRAS-CHAVE: REGIONALIZAÇÃO BRASILEIRA; DIVSÕES REGIONAIS BRASILEIRAS.

ABSTRACT: This paper analyzes how the process of dividing territories to form Hereditary Captaincies, undertaken by the Portuguese Crown, generated notions of social belonging in the divided territories, influencing the regional divisions of Brazil for centuries, up to the present moment, with the names of States and Municipalities already established since the Brazilian Colonial Period, although with modifications subsequent to the beginning of the Hereditary Captaincies. It is possible to say that the territorial division of Brazil into Hereditary Captaincies was decisive for the formation of many territories and geographically systematized regionalizations across the Brazilian territory.

KEYWORDS: BRAZILIAN REGIONALIZATION; BRAZILIAN REGIONAL DIVISIONS.

INTRODUÇÃO

  A regionalização brasileira foi influenciada principalmente pela Coroa Portuguesa durante o surgimento das Capitanias Hereditárias, influenciando até hoje as definições de território no Brasil, mesmo após fatos como anexação do Acre ao Brasil novas formas de divisão de Unidades Federativas. A regionalização brasileira é uma prova socialmente concreta de como políticas públicas são capazes de influenciar o sentimento de pertencimento social, divisões territoriais por séculos e de que o foco de medidas governamentais podem gerar heterogeneidade entre territórios, gerando classificações como as de regiões.

                 Como a colonização no Brasil até hoje influencia a divisão regional brasileira?

       A partir de 1534, por ordem de D. João III, foi estabelecido o sistema de capitanias hereditárias, que se destacou como a primeira forma de regionalização brasileira, elaborado com o intuito de facilitar a administração colonial do território brasileiro pela Coroa Portuguesa, com uma gestão que delegava a pessoas ricas e ligadas à coroa portuguesa a função de aplicar recursos financeiros e administrar territórios previamente divididos pela Coroa Portuguesa em catorze capitanias hereditárias, em quinze lotes de terra,  cada pessoa que recebia essa função era denominada de capitão-donatário, e tinha o direito de transmitir a herança da Capitania Hereditária, porém tinha o dever de subordinação à Coroa Portuguesa e a obrigação de repassar parte dos seus retornos financeiros adquiridos pela  administração e investimentos da Capitania Hereditária à Coroa Portuguesa.

      Esta forma de regionalização envolveu critérios físicos, como: clima, vegetação, hidrografia, tipos de solos, relevo e litoral de forma bastante evidente, visto que cada Capitania Hereditária estabelecida tinha  suas peculiaridades em aspectos físicos, assim como aspectos sociais, os aspectos sociais tiveram muitas mudanças ao decorrer dos acontecimentos na história do Brasil e ainda passam por mudanças e foram muito decisivos sobre os aspectos físicos brasileiros, entre eles a degradação da mata atlântica. A divisão do Brasil em Capitanias Hereditárias inclusive influenciou a divisão territorial dos Estados Brasileiros e seus nomes, como as Capitanias Hereditárias de Alagoas, Paraíba e Pernambuco que hoje são Estados da República Federativa do Brasil.

     Abaixo é possível observar a imagem de um mapa que representa a divisão em capitanias hereditárias feita pela Coroa Portuguesa e outras imagens com mapas de outras formas de regionalização brasileira, incluindo a forma atual reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:

Mapa de Luís de Teixeira, de 1574 – Redesenhado por Regina Alonso- Departamento de Geografia, Diretoria de Geociências (IBGE,2000).

                                               Mapa de Capitanias Hereditárias (IBGE)

Os mapas acima representam não apenas as capitanias hereditárias ou o nome dos seus capitães donatários como na primeira imagem, mas também as primeiras delimitações do território brasileiro que serviram de base para futuras delimitações territoriais de Unidades Federativas, regiões brasileiras, mesorregiões, microrregiões, entre outras.

                                  Divisão do Brasil em 19 províncias em 1822 (TODA MATÉRIA).

Na representação acima o Brasil tinha 19 províncias, as capitanias hereditárias já estavam formalmente extintas, por Marquês de Pombal, mas a divisão das províncias foi feita com semelhanças na divisão de capitanias hereditárias, considerando os fatores físicos e sociais, A província da Cisplatina foi perdida pelo Brasil após 1825, na Guerra da Cisplatina, entre as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Brasil (províncias colonizadas pela Espanha que hoje são territórios da Argentina), atualmente o território que foi a província da Cisplatina é o país do Uruguai.

                                    Divisão regional do Brasil em 1889 (TODA MATÉRIA).

A partir da República as Unidades Federativas deixam de se denominar Províncias e passam a ser chamadas Estados, muitos de influências históricas, sociais, físicas e econômicas ainda do período das capitanias hereditárias. O Estado do Paraná é emancipado de São Paulo e a Província do Grão-Pará foi desmembrada, surgindo os Estados do Pará e Amazonas.

Mas apenas a partir de 1913 que houve uma sistematização da regionalização conhecida a público de organizar a regionalização do Brasil não apenas em Unidades Federativas, mas em complexos regionais, para melhorar o ensino de geografia nas escolas, facilitando uma integração entre o ensino de história e geografia e a percepção das semelhanças entre Estados Brasileiros: suas histórias, vivências sociais, aspectos físicos, sentimentos de pertencimento social que deram origem a outros Estados como o Tocantins, que foi desmembrado do Estado de Goiás.

     Mapa com a primeira forma de regionalização do Brasil em complexos regionais (TODA MATÉRIA).

Em 1940 surge uma nova forma de divisão das regiões pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com as regiões: Norte, Centro, Nordeste, Leste e Sul, com divisão representada no mapa abaixo:

                  Regionalização do Brasil feita pelo IBGE em 1940 (IBGE, 1940).

Em 1945 foi organizada outra regionalização, como representada no mapa abaixo:

                    Divisão regional do Brasil em 1945 (TODA MATÉRIA).

A partir de 1970 surge a forma de regionalização aceita atualmente representada no mapa a seguir:

                               Divisão atual das cinco regiões brasileiras (Prepara Enem).

Como é possível perceber as formas de regionalização aplicadas no Brasil têm forte influência da colonização portuguesa, envolve aspectos físicos e sociais, apesar do espaço de tempo entre novos registros de regionalização, a dinâmica dos fatos e incorporação de territórios como o do Acre em 1903, pelo Tratado de Petrópolis, foram constantes antes mesmo da adoção oficial de novas formas de regionalização brasileira. Mesmo com essas formas de regionalização, alguns Estados apresentam muitas semelhanças com Estados vizinhos de outras regiões, como Minas Gerais que têm semelhanças com a Bahia, com a presença de vegetação de Caatinga, no extremo norte de Minas Gerais, o Estado da Bahia com vegetação de Cerrado, no oeste baiano, onde faz limites com Goiás e Tocantins, a vegetação de Cerrado é mais comum na região centro-oeste. A conclusão é que se torna difícil pensar uma forma de regionalização sem considerar as influências histórias, sociais, físicas e culturais e que não existe uma homogeneidade como regra de cada Estado em sua região.

CONCLUSÃO

A regionalização brasileira é marcada também pelo poder das elites brasileiras e de divisão de histórias sociais bastante perceptíveis no dia a dia das pessoas, desde o período colonial, ao analisar que a Capitania de São Vicente, uma das que prosperou e hoje seus territórios pertencem ao Estado de São Paulo, o mais rico do Brasil localizado na região Sudeste, percebe-se que surgem nessas terras uma cultura de investimentos e uma percepção social de que o Estado de São Paulo é prospero, mas também pelos deslocamentos da classe trabalhadora, como pelo êxodo de pessoas da região Nordeste em busca de oportunidades e uma vida melhor principalmente em direção aos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro e pela imigração de imigrantes italianos e alemães para Estados da Região Sul do país: Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. As regiões brasileiras são marcadas por funções econômicas, gerando uma divisão de trabalho nacional de acordo com os parâmetros da divisão internacional do trabalho, a atual região Sudeste teve seu destaque no ciclo do ouro, no século XVIII, mas continuou destacando-se de acordo com os avanços da industrialização brasileira, a região Norte foi marcada pela exploração das suas riquezas naturais até os dias atuais, a região Centro-Oeste tem um legado de atividades econômicas ligadas à agropecuária, a região Sul tem destaque na atuação principalmente de imigrantes que ao chegarem em suas terras constituíram famílias e desenvolveram práticas agrícolas de culturas como o trigo que tiveram o favorecimento do clima da região Sul. Enquanto que a região Nordeste tem seu protagonismo em práticas agrícolas como seu destaque durante o ciclo do algodão, e hoje o Nordeste tem destaque significativo em projetos avançados de agricultura como os que ocorrem na cidade de Petrolina, no Estado de Pernambuco, Estado que foi território da Capitania Hereditária de Pernambuco, durante o período colonial, e que foi uma Capitania Hereditária prospera. Também é bastante notável a atração que a região Nordeste tem para as indústrias que buscam ter instalações nos Estados nordestinos pelos incentivos fiscais e também pela localização estratégica da região Nordeste.

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[1] Graduado em Licenciatura em Geografia pela Unicesumar, e atualmente cursando pós-graduação em Geografia regional brasileira pelo Centro Universitário Faveni- UNIFAVENI.

[2] Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário ETEP.